sobre livros e a vida

27/10/2019

Tá Na Estante :: ‘A Terra Inabitável’

Quando olhamos a sinopse deste livro, nos dá uma sensação de que novamente iremos nos deparar com mais uma literatura sensacionalista sobre o fim dos tempos. Mas não é isso que David Wallace-Wells no entrega em seu A terra inabitável: uma história do futuro. O texto deste livro é escrito de na forma de reportagem jornalística, tendo seu apoio em artigos científicos (você tem as referências utilizadas pelo autor ao longo do livro nas páginas finais).

Nesta obra, que se origina de uma matéria escrita por Wallace-Wells ao New York Magazine em 2017, temos relacionadas as diversas mudanças que irão ocorrer devido ao aumento da temperatura global nos próximos 80 anos (a previsão especulativa da ciência apresentada neste livro é até 2100). Antes de apresentar mais sobre esta leitura e minha opinião sobre ela, venho, com respeito às diversas ideologias existentes, esclarecer que nesta resenha não haverá margem para não acreditar que o aquecimento global é um fato.

Na primeira página do livro, o autor já nos traz todas as ilusões relacionadas com ao aquecimento global: o aquecimento como uma saga ártica; algo estritamente relacionado com o nível dos mares e os litorais; uma crise do mundo natural e não relacionado com os seres humanos; de que a riqueza pode ser uma proteção contra as devastações do aquecimento; que a queima de combustíveis fósseis é o preço a se pagar pelo desenvolvimento.

Desse modo, Wallace-Wells já tira de seu leitor todas as expectativas de um texto neutro politicamente, não deixando, também, margens para tratar as mudanças climáticas como hipóteses, suposições e cenários fictícios. E ele não irá tirar dos humanos a culpa pelo que está ocorrendo.

A Terra conheceu cinco extinções em massa antes da que estamos presenciando hoje, cada uma delas uma aniquilação tão completa do registro fóssil que funcionou como um recomeço evolucionário, levando a árvore filogenética do planeta a se expandir e contrair como um pulmão (…).  Na verdade, todas elas [as extinções], com exceção da que matou os dinossauros, envolveram a mudança climática produzida por gases de efeito estufa (…). E neste exato instante há pelo menos um terço a mais de carbono na atmosfera do que em qualquer outro momento nos últimos 800 mil anos – talvez até nos últimos 15 milhões de anos.

O autor apresenta as previsões de aquecimento até 2100 e as consequências desses “poucos” graus Celsius a mais. Em uma estimativa de um aumento de 2°C (obs: 2°C de aquecimento global era o limiar da catástrofe quando o Protocolo de Kyoto foi firmado em 1997), as calotas polares começaram a desmanchar; 400 milhões de pessoas terão escassez de água; grandes e importantes cidades litorâneas da zona equatorial serão inabitáveis; nas latitudes setentrionais (hemisfério norte), o calor do verão matará milhões de pessoas.

Com 3°C, a Europa Meridional viverá uma seca permanente; a América Central passaria a ter seca de 19 meses a mais, o Caribe, 21 meses, o norte da África, 70 meses; as queimadas por incêndios florestais dobrariam no Mediterrâneo e sextuplicariam nos EUA.

Com 4°C, aumento para 8 milhões novos casos de dengue só na América Latina; aumento em 9% da mortalidade ligada ao calor; em alguns lugares, seis desastres ambientais provocados pelo clima poderiam ocorrer ao mesmo tempo; o prejuízo global passaria dos 600 trilhões de dólares (mais riqueza do que existe hoje no mundo); regiões inteiras da África, Austrália e dos EUA, parte da América do Sul e da Ásia ficariam inabitáveis devido ao calor direto, à desertificação e às inundações. E estes são os melhores cenários. A estimativa chega a um aumento de 8°C.

Na verdade, mais da metade do carbono dissipado na atmosfera devido à queima de combustíveis fósseis foi emitido apenas nas últimas três décadas. Ou seja: trouxemos mais prejuízos para o destino do planeta e sua capacidade de sustentar a vida humana e a civilização depois que Al Gore publicou seu primeiro livro sobre o clima do que em todos os séculos – ou milênios – anteriores.

Ao apresentar todas as catástrofes (que não param apenas no que expus até aqui), o autor nos chama a atenção ao fato de que a responsabilidade está no que nós (eu, você e população mundial) iremos fazer nas próximas décadas. David nos atenta ao fato de que deveríamos nos unir globalmente e tomarmos frente para amenizar ou inverter o rumo que estamos seguindo. Contudo, mesmo que tomemo logo a atitude de pararmos com a emissão de carbono e cumprido o proposto nos acordo de Paris, é provável que alcancemos um aumento entre 3,2 e 4°C até 2100.

Na verdade, foi assim que o governador da Califórnia, Jerry Brown, descreveu o estado de coisas em plena crise de incêndios florestais no estado: “o novo normal”. Mas a verdade é bem mais assustadora. Isto é, o fim do normal; nunca mais o normal. Já abandonamos o estado de condições ambientais que permitiu ao animal humano evoluir, numa aposta incerta e imprevista do que esse animal é capaz de suportar. O sistema climático sob o qual fomo criados, assim como foi criado tudo o que entendemos até hoje por cultura humana e civilização, agora está, como o pai ou a mãe de alguém, morto.

Por mais alarmante que a situação seja e que estejamos de acordo, outra reflexão é trazida pelo autor: a nossa inércia. Assim como ele reflexiona no livro, eu também não sou ambientalista e sempre vivi em cidade, cercada de carros e aparelhos de última tecnologia, e embora eu compreenda a importância da natureza, da limpeza dos corpos d’água e do ar, o comodismo que a revolução industrial e tecnológica trouxeram até mim me fazem pender a balança para eles.

Não adianta ser hipócrita, apesar da consciência sobre o atual estado do planeta, sou como bilhões de outros seres humanos, sentada em meu computador, andando no meu carro, vivendo em uma sala com a comodidade da água fresca e do ar condicionado, olhando para meu próprio umbigo. Este é o ponto que precisamos mudar essa visão, não drasticamente, mas aos poucos para conseguirmos reverter esse processo. Mas ninguém disse que é ou vai ser fácil.

(…)[A mudança climática] que é não apenas a maior ameaça que a vida humana no planeta já enfrentou, como também uma ameaça de categoria e escala totalmente diferentes. Isto é, a escala da própria vida humana.

Eu comecei a ler esse livro em agosto, bem no meio do caos da queima da floresta amazônica. Foi uma leitura densa, que se arrastou por mais de um mês, pois a cada página virada, eu levava um soco diferente no estômago. Não é uma leitura leve, é uma leitura acompanha de lápis, marcadores e caneta marca texto, no qual refleti e anotei pontos no livro todo. Deveria ser, ao meu entendimento, uma leitura obrigatória a todos, sem exceção.

Não podemos mais fechar os olhos e acreditar que toada essa mudança climática não vai nos atingir. A mudança, em minha vida, começou a vir nos pequenos gestos do dia-a-dia, mas é assim, pelas gotinhas frente ao oceano que vamos chegando a um futuro melhor.

No livro o autor vai trazer também a responsabilidade dos governantes frente a situação do clima. Em alguns pontos concordo e em outros discordo com ele. Deixo essa reflexão para ser feita por cada um que ler o livro.

BEIJÃO E ATÉ MAIS!

 

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